Depois de 24 anos longe da ficção, Cacá Fernandes escreveu, editou, diagramou e até produziu a capa de seu novo romance sozinho. Em entrevista ao Cultipicks, ele fala sobre a explosão global do k-pop, os limites entre persona e pessoa, e o preço de ter que se expor por um livro depois de trinta anos construindo a exposição de outras marcas e produtos.
Há quase 30 anos no mercado de marketing e comunicação, com passagem de 12 anos como editor-chefe de revistas e livros, Cacá Fernandes nunca deixou de ser, nas suas próprias palavras, “um curioso do mundo das artes”. Essa curiosidade agora ganha forma em A Garota de Seul, romance publicado pela K2 Editora, dividido em seis partes e 43 capítulos que atravessam Nova York, São Paulo e Seul na esteira da obsessão de um publicitário brasileiro por uma idol do k-pop.
O livro nasceu de uma intuição sobre o k-pop como fenômeno de imagem e de marca global, mas se transformou, ao longo do processo, em algo mais pessoal: a prova de que Cacá ainda conseguia — sozinho, da escrita à diagramação — colocar um produto cultural de qualidade no mundo. Conversamos sobre tudo isso.
Cultipicks: Antes de tudo, gostaríamos de entender a origem do projeto. De onde veio a ideia de A Garota de Seul? Teve um momento, uma imagem, uma viagem — algo específico que acendeu a faísca dessa história?
Cacá Fernandes: Percebi o aumento da exposição de artistas coreanos no mundo do entretenimento — TV, cinema, música e artes — e intuí a explosão dos grupos femininos de k-pop como um fenômeno cultural, um fenômeno de imagem e de branding, que se mistura com o mundo da moda e dos cosméticos.
Isso tem uma raiz até no meu olhar profissional: quando a cultura do cancelamento começou a restringir o uso do padrão estético tradicional — mulheres brancas, loiras, magras — na publicidade, percebi um movimento em que se mantinha o “lindas e magras”, mas transferindo esse papel para modelos e artistas asiáticas. Foi ali, observando o cinema e a música coreana, que enxerguei o movimento que faria o k-pop explodir no mundo todo.
Cultipicks: Quanto tempo levou o processo, da ideia inicial até a publicação de A Garota de Seul?
Cacá Fernandes: Comecei a pensar no livro em 2018, mas o texto só começou a tomar forma mesmo durante o isolamento da pandemia de Covid-19. A partir daí foi um trabalho tranquilo de escrita e reescrita, até chegar ao texto final que, ao meu ver, já tinha o ritmo, a forma e o contexto que eu queria para este livro.
Cultipicks: Você trabalha com marketing e comunicação há quase 30 anos. Isso te deu um olhar “de dentro” para construir o protagonista, alguém que entende como imagem e desejo são fabricados?
Cacá Fernandes: O personagem é publicitário, mas não tem nada a ver com o mundo das artes — além disso, ele é leigo em entretenimento coreano, o que o torna o personagem ideal para a jornada de descoberta do universo do k-pop.
Cultipicks: E a Sue, a idol pela qual ele se obceca? Como você construiu essa personagem sem cair na armadilha de fazer dela apenas um objeto de desejo?
Cacá Fernandes: Para mim, Sue sempre foi uma personagem meio etérea, meio distante — ela mesma se confunde entre a persona que construíram para ela e a pessoa que ela realmente é. Muitas vezes isso soava no texto como uma crítica; reescrevi até encontrar um tom em que ela é simplesmente assim.
Cultipicks: O livro se passa em três cidades — Nova York, São Paulo e Seul. Qual delas você sente que conhece “na pele”?
Cacá Fernandes: Sou de São Paulo, então conheço a cidade como poucos. Mas também tento visitar Nova York todo ano, e a cidade já tem vários lugares no meu coração — acho que isso fica evidente no livro.
Cultipicks: A estrutura do romance é dividida em seis partes, cada uma aberta por uma epígrafe musical. Por que a música como fio condutor?
Cacá Fernandes: As músicas escolhidas tentam apresentar o leitor ao ambiente musical dos protagonistas e buscam, assim como o título de cada capítulo, passar uma mensagem — mesmo que subliminar — sobre o que está acontecendo naquele momento da história. Não sei se você percebeu, mas todos os capítulos fazem alusão a um filme, ou até levam o próprio título do filme.
Cultipicks: Essa é uma camada que passa despercebida numa primeira leitura. Pode nos dar um ou dois exemplos de capítulos em que essa alusão ao cinema é mais clara?
Cacá Fernandes: “Perfect Blue” é um capítulo em que dou pistas do que a personagem principal pode ter sofrido no passado, assim como na famosa animação japonesa. Já “Before Sunset” antecipa a atmosfera do casal protagonista, como no filme de Richard Linklater.
Cultipicks: Kim Pipe é essa figura sombria da indústria que aparece cedo na trama. Ele é baseado em algum arquétipo real do entretenimento coreano, ou é uma criação mais livre?
Cacá Fernandes: Kim Pipe é uma mistura gigante de referências: vai do escândalo de Puff Daddy, passando pelos funkeiros brasileiros, até chegar aos escândalos coreanos dos últimos anos.
Cultipicks: E a Cici, a personagem que explica o universo do k-pop através do olhar do protagonista?
Cacá Fernandes: Ela nasceu apenas para ser uma fã de k-pop, alguém que mostrasse o tamanho das fanbases no Brasil. Mas foi ganhando narrativa e acabou virando um personagem cheio de vida própria.
Cultipicks: Você revisou alguns capítulos ao longo da edição. Sem entrar em detalhes técnicos: o que mudou na sua forma de escrever nesse processo?
Cacá Fernandes: Pela primeira vez tentei escrever pensando na experiência que o leitor teria com o texto — tanto que a primeira versão tinha pelo menos mais 100 páginas. Fui cortando e editando pensando em ser mais direto, mais enxuto. E acho que vale a pena dizer: eu escrevi, editei, revisei, diagramei e até fiz a capa do livro.
Cultipicks: Fazer tudo sozinho tem um preço: você perde a distância crítica de um editor externo. Sentiu falta disso, ou os 12 anos como editor-chefe te deram segurança para confiar no próprio julgamento?
Cacá Fernandes: Eu não confio no meu próprio julgamento até hoje (risos). Mas gosto de artistas que têm controle total sobre a própria obra — no meu primeiro livro, as edições e os contextos de publicação fizeram com que eu não sentisse que aquele livro era realmente meu. Para este projeto, decidi fazer tudo sozinho. Sei que, com isso, passaram alguns errinhos na revisão, mas pelo menos não posso me isentar: o que está ali foi feito 100% por mim.
Na verdade, também precisava provar para mim mesmo que, mesmo depois de 24 anos sem publicar nada, eu ainda conseguia escrever tudo sozinho e, principalmente, entregar um produto cultural de qualidade sem ajuda de ninguém. Sentar no InDesign — no passado eu usava PageMaker — para diagramar o texto, e depois fazer a capa no CorelDRAW com apoio do Photoshop, foi uma das coisas mais prazerosas de toda essa jornada.
Cultipicks: Fica a pergunta óbvia: o que aconteceu nesses 24 anos entre a última publicação e A Garota de Seul?
Cacá Fernandes: Confesso que fiquei meio decepcionado com o resultado do meu livro anterior, Mulheres, de 2004 — senti, naquele momento, que não tinha mais nada a dizer. Fui então tocar minha carreira de marketeiro, cuidando de grandes marcas e, depois, cuidando exclusivamente de uma grande marca, até ela ficar bem consolidada.
Mas havia alguns anos eu buscava um desafio que tivesse a arte como pano de fundo. A ideia inicial do livro era um roteiro para cinema; nos primeiros rascunhos percebi que precisava de mais texto para dizer tudo o que eu queria dizer. Daí, um livro.
Cultipicks: Depois de uma carreira consolidada em marketing, você buscava um desafio com a arte como pano de fundo. O livro preencheu essa busca, ou é a abertura de algo maior?
Cacá Fernandes: Está sendo doloroso, viu (risos). Na minha carreira em marketing sempre trabalhei marcas e produtos muito mais consolidados do que esse meu produto cultural, um livro. Mas é ótimo pensar fora da caixa, e estou me atualizando de tudo para tentar impulsionar a trajetória dele.
Cultipicks: Nesse “se atualizar de tudo” para impulsionar o livro, o que tem sido mais difícil de encarar?
Cacá Fernandes: Eu sou mais discreto, não gosto de me expor. Está sendo bem doloroso enfrentar a realidade de que, se eu não me expuser, se eu não falar — assim como nesta entrevista —, o livro não consegue se posicionar no mercado sozinho. Ele fica refém dos algoritmos e dessa máquina de notícias em que as redes sociais se transformaram.
Cultipicks: Sem spoilers: qual foi a cena mais difícil de escrever — não tecnicamente, mas emocionalmente?
Cacá Fernandes: A sequência final, com certeza. Sem dar spoiler, mas para mim foi a mais difícil, porque eu queria um certo clima, uma certa loucura controlada. Gosto do efeito que essa parte do texto pode provocar no leitor, embora ache que alguns vão se surpreender.
Cultipicks: Para fechar: se A Garota de Seul encontrar seus leitores como você espera, o que vem depois?
Cacá Fernandes: A princípio, eu não pensei em um texto que precisasse de continuação. Mas confesso que, assim que terminei a edição do livro, tive algumas ideias para transformá-lo no primeiro romance de uma trilogia. Meio que sem querer, está nascendo uma continuação, sim — sem spoiler, mas pensa numa troca de Seul por Tóquio, e também do universo do k-pop pelo universo do anime: talvez tenhamos A Garota de Tóquio em breve. O terceiro livro fecharia o ciclo de volta em São Paulo.
A Garota de Seul já está disponível. K2 Editora, 2026.









