Há alguns dias, publicamos aqui no CultPicks uma seleção dedicada à obra de Brian De Palma. Entre os comentários, uma ausência chamou especialmente a atenção: O Pagamento Final (Carlito’s Way, 1993). A lembrança foi tão pertinente que decidimos revisitar uma das vertentes mais fascinantes da filmografia do diretor: seus filmes sobre o crime organizado.
De Palma costuma ser associado aos thrillers psicológicos, ao voyeurismo, à obsessão pelo olhar e à influência de Alfred Hitchcock. Entretanto, sua contribuição ao cinema de gângster ocupa um lugar igualmente importante em sua trajetória. Nesse universo, o cineasta encontrou o terreno ideal para desenvolver algumas de suas maiores virtudes: movimentos de câmera extraordinários, sequências de suspense construídas com precisão quase matemática e personagens que parecem caminhar, inevitavelmente, em direção à própria ruína.
Em Scarface (1983), Os Intocáveis (1987) e O Pagamento Final (1993), De Palma explora três perspectivas bastante distintas sobre o poder, a violência e os códigos de lealdade que sustentam o submundo do crime.
Em Scarface, acompanhamos a ascensão vertiginosa de Tony Montana, um homem cuja ambição desconhece limites e transforma o sonho de prosperidade em uma espiral de paranoia e autodestruição. Já Os Intocáveis desloca o olhar para o outro lado da lei, recriando o confronto entre Eliot Ness e o império criminoso de Al Capone em uma narrativa de heroísmo, corrupção e violência, marcada por algumas das sequências mais memoráveis do cinema dos anos 1980.
O Pagamento Final, por sua vez, talvez seja o mais melancólico dos três. Na interpretação extraordinária de Al Pacino, Carlito Brigante é um homem que conhece profundamente as regras do crime, mas deseja abandoná-las. Seu maior adversário já não é a ambição de conquistar o mundo, e sim a dificuldade de escapar de um passado que insiste em determinar seu futuro. É um filme sobre a possibilidade de redenção, sobre escolhas tardias e sobre a tragédia de perceber que a liberdade pode estar próxima demais para ser alcançada.
Embora realizados em momentos diferentes e sem qualquer continuidade narrativa, os três longas formam uma espécie de trilogia informal do crime, jamais concebida ou oficializada por De Palma. Vista em conjunto, ela revela uma fascinante transformação temática: da conquista do poder à defesa da ordem, até chegar ao desejo de abandonar definitivamente um mundo governado pela violência.
Há também um elemento que atravessa essas histórias: a capacidade de De Palma de transformar o espaço cinematográfico em tensão. Escadarias, corredores, estações de trem, clubes noturnos e ruas deixam de funcionar como simples cenários. Tornam-se peças essenciais de uma encenação em que cada movimento, cada olhar e cada segundo podem alterar o destino dos personagens.
Rever esses três filmes é reconhecer um diretor em pleno domínio de sua linguagem, capaz de transitar entre o espetáculo operístico, o suspense clássico e a tragédia íntima sem perder sua assinatura visual.
E talvez seja justamente O Pagamento Final, frequentemente menos celebrado que os outros dois, aquele que melhor revela a dimensão humana de seu cinema.
Três filmes. Três maneiras de enfrentar o crime, o poder e o destino. Um mesmo cineasta no auge de sua inventividade.
Agora queremos saber: qual dos três é o seu preferido? E qual outro filme de Brian De Palma merece entrar nessa conversa?
Deguste sem moderação!







