CINQUENTA ANOS DE CINEMA, HISTÓRIAS E DESCOBERTAS. A MOSTRA É PARTE DA ALMA DE SÃO PAULO
Poucos acontecimentos culturais se confundem tanto com a identidade de uma cidade quanto a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ao completar 50 edições, o festival celebra uma trajetória extraordinária, construída entre salas escuras, encontros memoráveis, cineastas de diferentes gerações e espectadores que aprenderam a descobrir o mundo através do cinema.
Criada em 1977 por Leon Cakoff e hoje dirigida por Renata de Almeida, a Mostra atravessou transformações políticas, culturais e tecnológicas sem perder uma de suas maiores virtudes: apresentar ao público filmes que dificilmente encontrariam espaço no circuito comercial brasileiro. Ao longo dessas cinco décadas, ajudou a formar gerações de cinéfilos, revelou talentos, aproximou cinematografias distantes e transformou São Paulo em um ponto de encontro privilegiado do cinema mundial.
Há algo de particularmente fascinante nesses dias em que a cidade passa a respirar cinema. As conversas continuam depois dos créditos, desconhecidos discutem filmes nas filas, descobertas inesperadas se tornam favoritas e histórias vindas de países que mal aparecem em nosso cotidiano encontram um público disposto a ouvi-las. É essa experiência coletiva, cada vez mais preciosa, que faz da Mostra uma instituição cultural tão importante.
A edição comemorativa de 2026 reúne quase 400 títulos de mais de 90 países, entre obras de cineastas consagrados, novos realizadores, produções premiadas e experiências que desafiam as convenções narrativas. Uma programação que reafirma a vitalidade do cinema em tempos de profundas mudanças na maneira como produzimos, distribuímos e assistimos às imagens.
Escolher apenas cinco filmes diante de tamanha diversidade é uma tarefa ingrata. Mas foi exatamente esse o desafio que assumimos aqui no @cultpicks: selecionar cinco obras que consideramos imperdíveis nesta edição histórica, privilegiando o olhar autoral, a força das histórias e o prazer de descobrir um grande filme antes que todo mundo esteja falando dele.
A 50ª Mostra acontece de 15 a 29 de outubro, e nossa seleção está no carrossel.
Porque algumas das melhores experiências do cinema começam justamente quando entramos numa sala sem saber exatamente o que vamos encontrar.
Confira nossas cinco escolhas. E conte para nós: qual filme da Mostra você está mais ansioso para assistir?
01 – Fjord, de Cristian Mungiu
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2026, o novo filme do diretor romeno Cristian Mungiu, responsável por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, acompanha uma família romeno-norueguesa que se estabelece em uma pequena comunidade às margens de um fiorde. Quando a filha adolescente aparece na escola com marcas pelo corpo, a educação religiosa e tradicional recebida pelas crianças desperta suspeitas entre os vizinhos. Estrelado por Sebastian Stan e Renate Reinsve, o longa investiga o choque entre valores culturais, liberdade individual, religião e intervenção do Estado. Conhecido por seu realismo rigoroso e pelos dilemas morais que atravessam seus personagens, Mungiu constrói mais um drama sobre as tensões entre convicções pessoais e responsabilidades coletivas.
02 – A Terra do Meu Pai, de Paweł Pawlikowski
Vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Cannes de 2026, o novo filme do cineasta polonês Paweł Pawlikowski, diretor de Ida e Guerra Fria, acompanha o escritor Thomas Mann e sua filha Erika em uma viagem pela Alemanha devastada do pós-guerra. Em 1949, depois de 16 anos de exílio nos Estados Unidos, o vencedor do Nobel de Literatura retorna ao país natal e atravessa territórios divididos entre as potências ocidentais e a União Soviética. Estrelado por Hanns Zischler e Sandra Hüller, o filme utiliza a relação entre pai e filha para investigar memória, identidade, culpa e pertencimento. Fotografado em preto e branco, retoma a elegância visual e o interesse de Pawlikowski pelas marcas que a história deixa sobre as relações humanas.
03 – Minotauro, de Andrey Zvyagintsev
Minotauro marca o retorno do cineasta russo Andrey Zvyagintsev, diretor de Leviatã e Sem Amor. Ambientado na Rússia de 2022, o filme acompanha Gleb, um executivo bem-sucedido cuja vida começa a desmoronar diante de pressões profissionais, conflitos pessoais e da crescente instabilidade política do país. Inspirado em A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, o longa transforma uma crise íntima em uma reflexão sobre poder, violência e deterioração moral. Exilado na França, Zvyagintsev retoma seu olhar implacável sobre a sociedade russa, explorando como as estruturas autoritárias e as tensões históricas contaminam até mesmo os relacionamentos mais privados. Foi vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2026.
04 – Tigre de Papel, de James Gray
Escolhido para abrir a histórica 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o novo filme de James Gray acompanha dois irmãos cujas vidas seguem caminhos diferentes: Irwin é um engenheiro dedicado à família, enquanto Gary trabalha na polícia. Quando uma oportunidade de negócio aparentemente promissora os aproxima da máfia russa, os vínculos familiares começam a se desfazer em meio à corrupção, à violência e à possibilidade de traição. Estrelado por Adam Driver, Miles Teller e Scarlett Johansson, o longa retoma temas fundamentais da filmografia de Gray, como lealdade, ambição e os conflitos entre família e destino. Apresentado em Cannes, chega à Mostra acompanhado de uma retrospectiva do diretor, que também recebe o Prêmio Leon Cakoff.
05 – Feito Pipa, de Allan Deberton
Escolhido como representante brasileiro na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional de 2027, o longa combina sensibilidade social e uma abordagem delicada das relações familiares. Também foi vencedor do Urso de Cristal e do Grande Prêmio do Júri Internacional na mostra Generation Kplus do Festival de Berlim. Feito Pipa acompanha Gugu, um menino de quase 12 anos que vive com a avó Dilma, uma professora aposentada que o cria com liberdade e afeto, contrariando os preconceitos de uma pequena comunidade. Enquanto enfrenta uma relação difícil com o pai, o garoto observa as transformações de seu entorno, onde uma barragem começa a revelar as ruínas de uma cidade submersa. O diretor cearense Allan Deberton, de Pacarrete, constrói uma narrativa sobre infância, identidade, memória e os diferentes modos de amar.
Deguste sem moderação!









